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October 23 TolicesAs coisas mais tolas que já vi na vida vieram de pessoas das quais eu não esperava tanto... O que me fez pensar o quanto eu também sou tola quando penso que sou muito esperta. Acreditem, são histórias verídicas:
Picolé
Existe aqui um picolé meio esquisito. Tem cor azul - o que já é estranho por demais para um comestível - e sabor de tuttifruti - que não ajuda em nada, já que eu não sei ao certo o que está contido em tuttifruti. Será que há jaca em tuttifruti? Afinal são todas as frutas, não é? Será que há Amarula em tuttifruti? Enfim. Estava sentada com minha prima em frente à casa de meus avós na Bahia. Um calor de aterrar, como vocês podem presumir, e milagrosamente nos aparece um moleque vendedor de picolé.
_ Ê, menino!
_ Fala!
_ Quanto tá o picolé?
_ Tem de ciquenta, de oitenta e de um...
_ Tem de quê?
_ De uva, de côco, de abacaxi, de goiaba, picolé de blue ice...
Blue Ice. Esse é o nome do picolé azul. Na verdade, o picolé é exatamente isso: um gelo azul. Mas na hora em que o moleque disse picolé de blue ice eu disparei a rir enquanto ele e minha prima me olhavam sem entender nada.
_ Como é que é um picolé de blue ice? Blue ice é o quê? Uma fruta? Igual goiaba?
Tá eu sabia que não era uma fruta, mas é que na minha burrice apressada não sabia que havia elipse da palavra sabor para justificar a preposição 'de'. O negócio é que nem minha prima nem o moleque acharam graça nenhuma. Eu também perdi a graça.
_ É que blue ice quer dizer gelo azul, sabe? Tá. Esquece... Eu quero um picolé de goiaba...
E a minha prima, como afronta:
_ Quero um de blue ice.
E o menino me entregou meu picolé em que estava escrito, entre figuras da fruta, o nome 'GOIABA' e o de minha prima, embalado em saquinho azul, com letras cor-de-rosa: BLÚ AICE.
Jajeira Mental
Estavam no ônibus. Dois estudantes do colégio militar daqui de Brasília. Deviam ter 11, 12 anos. Os dois com uma pinta de muito espertos conversavam com a cobradora do ônibus a respeito de um programa de televisão. Era o concurso 'SOLETRANDO'. Os meninos contavam vantagem dizendo que ganhariam facilmente o concurso...
_ A garota do programa não sabia o que era ornitorrinco...
A cobradora:
_ Eu também não sei o que é.
O mais metido dos meninos:
_ Ornitorrinco é uma espécime muito rara de mamífero, com boca de pato; corpo de lontra; pés, patas e cauda de foca. Na verdade, ele põe ovos, mas amamenta seus filhos e é um marsupial, como o canguru.
Foi nessa hora que eu parei na conversa deles. Meu irmão que estava do meu lado disse que eu quase belisquei o menino pra saber se ele era de verdade. Mas aí veio o pior de tudo. O outro menino resolveu se exibir também:
_ Eu sei soletrar ornitorrinco.
_ Então soletra!
_ O-R-N-I-T-O-R-R-I-N-C-O.
A cobradora:
_ Muito bem. Agora soletra uma coisa mais simples... Deixa eu ver. Soletra o que a menina da TV errou, soletra TIGELA.
_ Essa é fácil: T-I-J-E-L-A.
Ela corrigiu:
_ Tigela é com G.
_ Não é não.
_ É sim, foi isso que a menina errou...
_ Então ela não errou! Como alguém poderia escrever TIGUELA????
Ah, não, gente... Não, não.
October 14 NadaE cá estou eu sem ter nada a ver com as coisas, mas não alheia ao que há com os outros. Há mesmo coisas inevitáveis no mundo. E uma delas, a mais incotestável delas, talvez, seja o fim. E não interessa de quem é a culpa, ou porque é que o seu link está na lista de visitantes da minha página. Não dá pra buscar em alguma coisa as razões do que era inevitável. Acaba-se o que era finito e pronto. Passado perfeito. Ação completada. Eu sei que parece simplista na boca de quem não tem nada a ver com a história. Mas é por ser simples mesmo que dói menos... E é melhor doer menos, né, não, gente? Ufa.
August 02 Eseque - O BrigatórioEra pra lá que as pessoas iam quando precisavam extravasar. Nada de shows de rock, baladas ou yoga. Quando as pessoas estavam a fim de exorcisar, se encaminhavam para Eseque. Vestiam suas túnicas de briga, arrumavam suas cristas e lá iam soprando fogo pelas ventas. Não era nenhum coliseu aquela arena, mas abrigava alguns centos de pessoas. Sim, lá também era assim, havia os que se divertiam brigando e os que se divertiam sem ter coragem de brigar. Viam o circo pegar fogo, sentados de suas desconfortáveis arquibancadas.
E foi lá que começou o maior galo de briga homem que já houve. Era inegável, havia nele um dom incomum que o colocava em posição de vantagem sobre qualquer outro lutador. A envergadura de seu nariz era tão arqueada, de uma cartilagem tão dura que pescoço nenhum era suficientemente resistente para aturar. Era o melhor lutador de todos os tempos, velhos tempos de brigatório. Tristão era imbatível.
No entanto, sabe-se lá por que ying yang, o bem nunca impera só.
Havia, nesse mesmo tempo, um lutador jactante chamado Pacífico. De nome, apenas. Desde menino, nunca admitira perder. Mimado e cheio de vontades, Pacífico cresceu. E foi tentando crescer, em sua pequenez de alma. O que cresceu foi apenas sua prepotência. De longe se via seu ego. E foi lá de longe, na arquibancada do Eseque, que Pacífico se achou no tamanho de medir forças com Tristão. Quando o locutor alegou a invencibilidade do nosso herói narigudo, o invejoso não se conteve - desafiou, de seu lugar desconfortável mesmo, o invicto Tristão.
Marcada a luta, os loucos e histéricos frequentadores do brigatório não viam a hora de o dia passar bem depressa. E o dia passou. Nada depressa, passou, porque é inevitável que o tempo passe.
Não foi uma luta muito bonita, muito menos limpa. Quando Tristão bicou o pescoçudo Pacífico, o rapaz do mal não se levantou mais. Havia sangue por todo o ringue e a polícia foi acionada. Tristão foi preso. Só ele, sim. Os donos do Eseque mandaram os advogados dizerem à imprensa que a briga era totalmente ilegal e não estava autorizada por eles. Os advogados acharam que seria de bom tom idenizar a família de Pacífico pelos danos. A imprensa acreditou, ou, pelo menos, fez com que as pessoas acreditassem que eles acreditavam que Tristão, nosso herói, tinha uma certa rixa com o defunto. Disseram que a causa da desavença era uma mocinha que preferira o defunto e preterira o detento.
Desde aquele dia, o brigatório não funcionou mais. O edifício ainda está lá, caindo aos pedaços por causa do abandono. Os velhos frequentadores desmentem que um dia estiveram lá. Mas você ainda pode reconhecer um Esequiano por aí... São esses que vivem dizendo "Não meta o seu nariz onde não é chamado" quando perguntados qual a graça de uma briga de galo. E não venha chamar de rinha o que eles fazem... Capaz de acharem que você é mais pescoçudo do que deveria.
;)
Mila
July 31 Depois da Tempestade... Bar virtual._ Se a gente é mesmo feito pra viver, porque essa vontade dolorida de fim o tempo todo?
_ Sei lá... Vai que a gente não foi feito pra viver...
_ Ah, não, esperteza? E por que a gente vive se não foi feito pra viver?
_ Eu já disse que não sei?
_ Já. Mas cê tem vontade dolorida de fim?
_ Bicho, acho que vontade dolorida de fim é coisa de artista, sabe? Gente sensível que não tem o que fazer? Aí vai olhando a vida, falando da vida, dizendo a vida, criando a vida, analisando a vida e acaba não vivendo...
_ Então cê não tem vontade dolorida de fim?
_ Primeiro que eu não tenho essas frescuras de dar nome difícil para as coisas... Fica até bonitinho, eu sei que todo mundo tem vontade de morrer, mas eu quero mesmo é esquecer que eu tenho isso. A gente podia filosofar menos e curtir mais, não?
_ Eu tô chata, né?
_ Você triplica sua chatice quando admite que tá chata.
_ É de propósito, mas obrigada pela sinceridade.
_ Você não tá chata, nem é chata também... Cê sabe disso, tô pra ver gente que tem mais consciência de si mesma que você. O negócio é que você pensa demais sobre as coisas. E, por incrível que pareça, você pensa falando...
_ Não é incrível, é normal. E eu nem tenho como evitar pensar demais sobre as coisas... Tô achando tudo tão difícil ultimamente que prefiro meus pensamentos.
_ Se a gente inventasse um bar virtual, você sairia pra tomar uma comigo?
_ Tomar uma? De onde cê tira essas idéias? Sabe que eu não bebo...
_ Eu também não, mas é virtual...
_ Acho que eu iria, sim. Onde é o bar?
_ Fica a uns três megas daqui... A gente chega lá rapidinho...
_ kkkkkkkkkkk... Sabe que você levanta meu astral, né? Tu é massa demais, C...
_ Olha aí... Nem bebeu ainda e já tá me dando mole...
_ Como você é bobo, gente...
_ Vai dizer que não é por isso que você me ama?
_ Acho que é por isso também...
C,
Certas pessoas são marcantes e inevitavelmente inesquecíveis... Declarações de amor não são meu forte, aliás, amor nunca foi meu forte. Mas você tem uma capacidade imensa de despertar as minhas forças pro que eu não pensava ser capaz de acordar. Amo você.
Mila July 25 A revolta dos animais_Vi outro dia um senhorzinho temperamental chamar aos amigos de animais. Me indignou o fato de eu ser uma dos amigos. Disse a ele que me indignara. Ele olhou-me com o desdém de quem realmente não emprestava nenhum valor à opinião alheia, principalmente à minha.
Pois eu vou dizer de novo: animal é a tua família, a tua casa, quem nasceu grudado aos teus pés. Sei o caminho da porta, e eu vou, não porque quer que eu vá, também por isso, mas vou mais por medo de me reduzir animalescamente à tua companhia.
E era assim que minha avó brigava nos anos 40... Viram? É de família. A gente vai ser desaforada e desbocada com classe até mil gerações. É instinto. rs.
"Bom dia, como estar vivo é bom! Sorria, todos tem esse dom!"... Sabe quando a gente tá mais feliz? Quando a gente esquece que acorda mal humorada todos os dias, quando esquece que é uma estátua de gelo na Sibèria, quando esquece como era ser pessimista, quando o dia já começa anormal, sabe? É isso. Minha vida está sendo anormal. rs.
Mila July 24 Mimaguô_ Tá, eu desisto. Desisto de tentar te entender, de tentar fazer você entender.
_ Desiste? Como assim desiste?
_ Assim, desistindo. Se eu não desistir disso, desisto de você.
_ Você não devia me falar isso. Agora me magoou.
_ Não faz mal... Eu desisti mesmo...
E saiu em falar mais nada, sem nem bater a porta. E era esperado que batesse a porta. Não deu pra ouvir os passos no corredor, os dedos tamborilando na porta do elevador. Só que celular não deixa ninguém em paz. Foi entrar no elevador e o telefone tocar.
_Quê? Não tô ouvindo. Tá sem sinal... Quê? Quem? Dá pra me ligar daqui a pouco? Vou desligar. Tchau.
E, de repente, houve escuridão. Sem mesmo alguém dizer 'que haja'. E a escuridão fez o elevador parar. Mas quem parou foi só o elevador, o coração disparou. A respiração acelerou, parecia que uma multidão respirava o ar que ela aspirava a aspirar.
Não era claustrofobia, mas parecia. E a frescura que afetou o elevador naquela hora fez com que se encostasse e se encolhesse no canto do elevador. O escuro parecia potencializar os sons que povoavam aquele fosso. Sentiu que as mãos não eram mais suas, e que os dedos não tamborilavam mais.
Desisto, sussurou baixinho. Um sussurro que tinha força de grito de acordar doente em coma. Era peso demais pra uma vida só. E olha, que eram duas pessoas. Desistiu. Abandonou os ombros sobre os joelhos, de cócoras, enquanto a cabeça ouvia os ruídos que o elevador fazia. Mimaguô, mimaguô, mimaguô era tudo que ouvia. Eu o magooei, era tudo o que pensava.
E houve luz. O elevador voltou ao normal e ela nem sabia porque era que se sentia tão mal assim. Quando abriram a porta, ela foi direto nos olhos dele.
_ Você está bem?
_ Tô.
_ Fiquei preocupada, saí sem te dizer nada. Foi você quem me ligou?
_ Fui.
_ Desculpa, eu tava no elevador.
_ Oh, querida, você vai ficar bem, viu?
Bem do quê? E ela via que o mundo ia passando enquanto ela ficava parada. Voava rapidamente na horizontal vendo meias pessoas, apenas. E onde estavam os olhos dele? Quis estender a mão e tocar a dele. Não havia mãos. Gemeu porque não podia fazer outra coisa, percebia que não conseguiria manter-se sendo por muito tempo. Tentou olhar e não conseguiu ver. Desistiu.
Não se assustem, hoje eu quis escrever e saiu o nome tragédia nas letras tortas. Acontece na vida de todo mundo. Eu queria mesmo morrer alguém; não literalmente, mas queria. (Muahuuahuahuahahuhauhau...)
Mila July 22 Tinta guacheConheci um artesão que vendia esculturas feitas de arame. Eram bonitinhas, mas nada tão demais que me fizesse querer ter uma daquelas. Era um homem conversador, inteligente e engraçado, se eu puder acrescentar alguma coisa. Quando eu estava observando os animaizinhos de fios de arame, veio um outro senhor e começou a fazer perguntas ao artista:
_ O senhor demora muito pra fazer uma peça? É coisa assim de uns quinze minutos?
(Sobre o tempo de criação de alguém: o autor nunca admitirá ser tão rápido nem tão demorado quanto os outros pensam)
_ Essa peça que o senhor está fazendo, quando começou, já tinha idéia do que seria?
(Quer dizer, o processo é uma coisa alheia em que o autor não sabe nada do que está fazendo...)
_ Onde aprendeu a enrolar o arame? A vida lhe ensinou?
(Ou seja, não existe dom. A vida ensina... Essa idéia nunca vai caber na cabeça de um gênio da arte...)
_ Como é seu processo criativo? Você pensa em que, para criar um jacaré, por exemplo?
(Dãhhhh...Todo artista reconhece a vida como modelo, isso é mimese... embora os jacarés parecessem muito com o artesão...)
Muito chato, o senhor metido a repórter de coluna crítica de arte. Todas as perguntas continham evidente desdém pelo trabalho do artesão. E, lógico, o dono das peças não ficou contente com isso. Estava suportando as críticas/perguntas calado, até que o questionador resolveu soltar essa:
_ Por que essas esculturas são tão caras? Esses aramezinhos são bem baratinhos...
Dava pra ver a indignação na cara do artista:
_ E o senhor acha que o preço das esculturas é o preço da matéria prima?
_ Acho... Vc só enrola esses fios, deveria ter um preço mais em conta, já que o arame é tão barato.
A resposta do artesão foi o melhor pensamento sobre a indústria cultural que eu já vi:
_ Se acha que arame é barato, quanto você acha que custa tinta guache?
_ Não sei, mas deve ser bem barato...
_ E por que não sai daqui e vai comprar um Picasso? Ora...
Ou seja, nem a obra vale pelo que é - sua matéria-prima - na essência, nem o artista é o que pensa que vale. Atribuíram um valor a Picasso, um valor ao artesão, um valor à obra e nehum deles corresponde ao valor real. Minha profesora de Literatura predileta diria que isso é o Fetichismo da Mercadoria. Eu diria apenas que Picasso pintava a óleo.
Mudei o tema e o layout do blog em homenagem à tinta guache de Picasso, mas eu volto pro anterior. Sei lá, aquela mão indiana com tatuagens indecifráveis de Henna tem mais cara de Além do Mais.
Mila
July 12 MaracujáVou confessar uma coisa, quando eu era criança (pra quem pensa em fazer aquela gracinha óbvia de que eu ainda sou criança, eu explico, tintim por tintim: o que eu quis dizer é quando eu, inegavelmente, tinha idade de criança...), queria fumar. Desejo de infância mesmo, sabe? Achava lindo aqueles filmes antigos em que as mulheres sensuais carregavam um cigarrete. Queria muito segurar o papelzinho enrolado enquanto ele fosse lentamente pegando fogo.
Nunca fui uma criança muito contida, eu era mais dócil, mas sempre fui inquieta. Um dia estava no quintal de casa, embaixo do pé de maracujá. Não era qualquer pé de maracujá, era o MEU pé de maracujá. Nosso quintal era muito grande, eu cresci em uma chácara em que podia gastar minhas energias em algo mais natural do que cortar os vestidos da minha mãe. Tínhamos alguns cinco pés de maracujá, dentre eles um era o meu. Pé de marcujá doce.
O fruto era um delícia, docinho, e meio arroxeado. Mas não era só do fruto que eu me utilizava embaixo daqueles ramos. Eu gostava de fingir que os caniços do caule do maracujá eram meus cigarros. Um dia, com o auxílio de minha melhor amiga, acendemos o caniço. Não teve muita graça, queimou rápido e só tinha gosto de fumaça. Pensamos em alguma coisa que pudesse servir de fumo. Encontramos: folhas de goiabeira.
E essa foi a primeira vez que eu fumei na minha vida. Não me lembro bem se senti alguma coisa diferente além do cheiro de mato queimado e do cheiro de goiaba verde. Lembro-me bem, no entanto, de que andei com o cigarrinho como se fosse uma dessas divas do cinema. Com o caniço entre os dedos, fui realizar meu sonho de ser sexy fumando. Tive que me concentrar tanto na tarefa de rebolar (naquela época não me era natural, eu tinha uns oito anos), que me esqueci do cigarrinho. E ele queimou os meus dedos.
Confissão parcialmente feita. Depois da confissão a gente precisa ter aprendido alguma coisa, precisa entender porque o que a gente fez estava errado e depois se punir. O que aprendi: que não posso me concentrar em duas coisas ao mesmo tempo e que ser sexy custa muito caro. Eu estava errada porque quando se comete um pecado (pecado porque, na minha casa, fumar sempre foi muito, muito errado), a gente precisa, pelo menos, curtir o pecado, já que ele vai ter consequência mesmo. E agora, a etapa final, a punição. Não foi meu primeiro pecado, mas até hoje não consigo me livrar das consequencias. A prova cabal está no fato de eu estar, neste momento, sofrendo com uma reação alérgica, só porque quis ficar sexy... Cosméticos não são brincadeira. Não têm fumacinha, mas enchem a pele da gente de bolhas.
Quem acredita em São Murphy diga Amém. Eu já estava assim ontem e tive uma entrevista de estágio. Em inglês! cheia de bolhas, nervosa e tendo que falar inglês! Agora, digam Aleluia. E vivam as leis de Murphy, já que elas não podem morrer, mesmo...
Ô, gente, eu tô horrorosa... ROFL. Vou quebrar o espelho daqui de casa pra não ter o desprazer de me ver cheia de bolha assim... Nem por isso deixo de gostar de maracujá, de goiaba e, muito menos, de cosméticos...
Mila
July 10 Dona Amanda e as árvores da montanhaDia desses eu vinha andando e parei pra observar. Na minha rua, há uma senhora que deve ter lá os seus muitos e muitos anos de idade e que sai todos os dias de manhã para catar as folhas secas que caem das árvores. Não, ela não usa rastelo ou qualquer outra ferramenta. Dona Amanda usa as mãos. E a boca também, porque, enquanto trabalha, geme baixinho uma musiquinha indecifrável. Cansei de só observar e fui ter com o meu destino:
_ Dona Amanda, o que está fazendo?
_ Bom dia, menina. Estou limpando as sujeiras que as árvores deixam na calçada.
_ Ah... (é que realmente ninguém deve ter notado que era isso...humpf) Não seria mais fácil usar um rastelo, uma pá e um cesto?
_ Se eu usasse um rastelo, uma pá e um cesto não seria um passatempo, seria um trabalho.
_ Ah...É um passatempo?
_ Sim. Quando a gente é jovem não entende o que é um passatempo. Quando meu esposo morreu (nosso lendário General Matias, de quem Dona Amanda sempre fala...), eu fiquei por muito tempo lá em cima no apartamento olhando as pessoas passarem e deixando cair as minhas lágrimas de saudade. Um dia uma lágrima caiu no ombro de um menino. (Juro que nessa hora eu pensei em fingir que minha mãe tinha me chamado e escapar dali correndo... Parecia coisa daqueles filmes que te obrigam a aprender uma lição de moral quando assiste. Não escapei porque ela segurou meu braço pra que eu servisse de muleta e ela pudesse caminhar). O menino apenas olhou pra cima e disse 'velha nojenta!'. E eu fiquei olhando as árvores. Elas também deixam cair no chão as feridas velhas que elas têm. Bom... eu devo estar impacientando você com a minha história, está escrito em seu rosto (Eita, velhinha sabida). Não quero incomodar ninguém, é por isso que venho recolher as folhas, uma por uma. Deve ser difícil, para as árvores, não poder sair do lugar e depois ter de ouvir 'velha nojenta' cada vez que uma mágoa atrapalha o caminho de alguém.
Eu soltei a mão da Dona Amanda dizendo que minha mãe estava me chamando. Não estava. Agora, toda manhã, quando olho pra ela, não penso mais 'que velha doida, catar as folhas secas, uma por uma?'. Não penso porque entendo que ela precisa desse gesto poético pra se esquecer das suas próprias lágrimas. Por outro lado, vai que um dia a mania dela me incomoda e eu grito 'velha doida!' e ela desenvolve outra mania pior? Melhor não arriscar.
Eu estive por um tempo muito ocupada. Agora, que estou de férias, é o ócio e a preguiça que me impedem de escrever mais. Quer dizer, considerando a frequencia dos últimos posts, o ócio tem me impedido de escrever mesmo. Mas... Talvez eu volte, um dia eu volto...
Mila
P.S.: Depois de reler o texto eu fui me dar conta de uma coisa... Amanda é um nome latino, gerado de um particípio que não existe mais na nossa língua, mas que quer dizer 'aquela que nasceu para ser amada'. Acho que o General Matias faz mesmo muita falta à minha idosa vizinha.
Mila
P.S.2: Pra quem sabe da história (Marcus), essa não é a velhinha do 'Me ajuda'... Pra velhinha do 'ajuda', eu diria, sim, 'velha doida!' . rs
Mila June 11 Conto da carochinhaEra uma vez,
June 04 As coisas como elas são e a vida como ela não é![]() Outro dia estava andando com uma amiga. Ela pedalava e eu ia a pé. Como de costume, pegamos o mesmo caminho. Conversávamos abobrinhas, dessas que mulheres conversam quando não têm mais nada pra fazer. Ao atravessar a rua, como duas boas cidadãs, usamos a faixa de pedestres. Quase que involuntariamente, quem me conhece sabe que isso é normal, eu comecei a conversar com os carros pra que eles parassem. Eu sei, eu sei que a maioria das pessoas acena com a mão para que os motoristas parem os carros. Eu também faço isso... e vou além, converso com os CARROS. Não enxergo motoristas, penso em carros.
_ Eu vou passar, acho bom que vocês parem. Vai ser melhor, podem acreditar._ e acrescentei _ Ela é uma BICICLETA, mas eu sou gente.
Os ciclistas que desçam das bicicletas, se quiserem atravessar pela faixa... A M, minha amiga, morreu de rir. Primeiro, porque eu converso com os carros e, Segundo, porque, enquanto ela estava em cima da bicicleta, tinha deixado de ser gente. Eu também ri. E depois fiquei pensando... São as coisas que fazem parte de nós ou nós que nos tornamos parte das coisas? A partir de que momento as coisas inanimadas tornam-se sujeitos das ações? Apassivação reificada? Ou vocês acham que é marxismo demais para uma cabeça só? rs. May 31 Blaséou A Coluna
Aí um dia eu me deparo com essa:
_ Porque eu sei. E eu sei que vocês não sabem, e talvez nem queiram saber, ou sei lá... Acho rídiculo que eu tenha que contribuir todos os dias para o crescimento de vocês. Não, porque é um absurdo. Um absurdo.... O que vocês leram para estar aqui? Eu estudei numa excelente escola, já disse? Não? É claro que já disse. Vocês é que não são capazes de guardar qualquer informação importante. Por exemplo, vocês sabem onde eu nasci? Sabem meu sobrenome? Não? Rídiculos. Todos vocês e ela também. Quem ela pensa que é? Pior. Quem ela pensa que é sem a minha ajuda?
Sem a minha ajuda esse encontro e esses poucos conhecimentos que vocês conseguem captar não seriam nada. Nada, entenderam? Eu repito, pra vocês: nada. E o que eu tenho a ver com o fato de vocês não ouvirem nada do que eu digo?Eu tenho que falar, mesmo que minhas palavras sejam pérolas derramadas aos porcos. Eu não posso admitir que alguém diga que o fato de vocês serem rídiculos ignorantes seja culpa minha. Porque não é minha culpa. Só será minha responsabilidade, se, milagrosamente, alguns de vocês concordarem comigo.
Ando cansada. Cansada de vocês me olharem como se eu fosse de outro mundo. Por mais que nós sejamos de classes e cores diferentes, eu ainda pertenço ao mesmo mundo que vocês. Nem sei se felizmente, ou infelizmente. Acho que ainda bem. Porque eu sou necessária, sei lá. Não. Sei lá, nada. Eu sei que eu sou indispensável. Indispensabilíssima se é que existe essa palavra. É que, às vezes, eu não sei falar português. Que foi? Vocês só falam português? Que ridículo.
Eu sou muito inteligente. A minha família é inteligente. Tradicionalmente inteligente.Tradicionalmente rica. Minha mãe era inteligente, a mãe dela era inteligente, a mãe da mãe dela e assim sucessivamente repetido. Sim, eu acho que os verbos que sofrem elipse nas estruturas de comparação devem aparecer no final da oração. Se não, não é oração. Não me importa que vocês consigam depreender que eu não preciso dizer o verbo porque vocês conseguem entender. Imagina. Ridículo: se, muitas vezes, nem mesmo eu consigo saber falar português, quem dirá vocês.
Não gosto de torres de marfim e nem de carrara. Minha torre é feita de ouro branco, não cravejei de brilhantes porque pensei que seria ridículo. Quem olha de perto, porém, se tiver o mínimo de sensibilidade, entende que os riscos bem acabados e perfeitos que ornamentam meu pedestal imitam um bordado egípcio que representava a família real.
Porque eu sei. Eu sei e pronto. Eu gosto. Eu quero e eu digo. Quem sabe um dia, quando eu for mais conhecida, vocês possam dizer que estudaram comigo, se eu não processar vocês antes, por dizerem o meu nome em vão._ respirou e calou.
E eu pensei: que se diz, quando as pessoas afirmam sua importância na vida da gente? Diz-se obrigado, pede-se licença e caminha-se. Pra frente é que se anda, não exatamente para cima; como pensam uns e outros.
É cada tipo de gente que eu encontro por aí... Dos mais bizarros aos mais rídiculos. Esse tipo aí é um dos que eu não aguento mais. Pensei, no entanto (rs), que poderia ser divertido escrever esse texto e pensar em como seria se a personagem encontrasse a realidade que não a conhece. Quem levaria o susto primeiro? A imagem, o espelho ou o objeto? Pra quem não me entendeu, calma. Pense apenas que eu tenho ouvido esse discurso por muito tempo. Tempo demais.
Mila May 15 Alface, tomate e cibolaOuçam.
_ Eu precisava mesmo sair daquele apartamento. Às vezes parece que as paredes querem me empurrar, ou me prender, eu sei lá... Você já se sentiu assim? Pensando que as paredes vão te apertar? Eu sinto isso, às vezes. Não, às vezes, não. Quase sempre. Não aguento mais ficar presa naquele apartamento. Antes eu tinha vontade de sair, ultimamente até disso eu não tinha mais vontade...
_ Ah.
_ A gente podia sair juntos mais vezes, talvez você pudesse ter algumas folgas na empresa... Eu sinto a sua falta, sabe? A gente tá tão longe... Moramos juntos e estamos tão longe. Não é engraçado quando a gente se descobre assim? Tão perto e tão longe. Não, acho que não é engraçado. Aliás, quase nada tem sido engraçado ultimamente.
_ Como é mesmo o nome daquela sua irmã que nós visitamos no sábado?
_ Quem?
_ A sua irmã... A gente almoçou na casa dela sábado...
_ A Dulce...
_ Dulcinéia, não é?
_ ...
_ Que salada divina ela sabe preparar... Uma delícia, nunca comi nada melhor que aquilo...
_ Eu tenho estado tão sozinha ultimamente. Você quase nunca está em casa, não vou mais para a faculdade, não trabalho mais... A gente não tem filhos. Será que um dia a gente vai ter filhos? Você acha que eu seria uma boa mãe? Acho que talvez alguém me faria companhia, pelo menos. Mas eu seria sim uma boa mãe. Tinha de ser. Seria a única coisa que me restaria. Talvez eu me sentisse realizada. Talvez eu não devesse pensar nisso. Parece que me aperta também pensar assim. Eu sei que pareço chata, mas eu sei que você me entenderia... Eu olho pro nosso apartamento e não vejo nada. Todas aquelas coisas de que eu gostava tanto antes, agora nem tem sentido e nem valor... Às vezes eu penso que eu também não tenho mais valor...
_ O que será que tinha no tempero da salada?
_ Azeite com alecrim. Eu não sou nada, você entende? Não sou boa dona de casa, aliás, eu nem preciso ser, as empregadas fazem isso por mim. Não sou uma boa profissional, porque nem profissão eu tenho. Não sou boa esposa... A gente não tem tempo mais de ser isso, não é? Mas eu entendo você. Só não me entendo, às vezes. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde tudo estaria assim... Acho que, sem querer, eu sabia. Só não acreditava. Eu não acreditava que eu pudesse me sentir tão vazia...
_ Qual o telefone da sua irmã? Vou pedir para a Berta ligar para ela e pedir a receita. Vou jantar em casa hoje, seria uma ótima idéia aquela salada.
_ Eu preferia não ficar em casa. Estou lá todos os dias... E as paredes me apertam, você consegue entender? Aquelas paredes me apertam. Eu sinto que estou por um fio quando estou naquela casa, e são as paredes que puxam o fio. Não posso continuar assim, estou a ponto de gritar socorro quando entro naquele apartamento. Tanto espaço e tanta coisa para nada. Os móveis estão sempre tão bem arrumados que chega a me dar arrepios. Parece que alguém me aprisionou em uma casa de bonecas. É isso... Talvez eu tenha me transformado em boneca. Presa em uma casa cor-de-rosa e vazia, inteiramente oca.
_ Alô, Berta? Faça um favor para mim? Ligue para a irmã da Dona Alice e peça a receita da salada de sábado. Isso. Diga que foi a Alice quem pediu, sim. Diga a ela que a Alice disse que estava tudo muito delicioso no sábado e que ela está convidada para almoçar em casa em qualquer fim de semana desses. Não, não... Melhor, melhor. Diga que vamos almoçar todos aí em casa nesse sábado mesmo. A Dona Alice? Ela está aqui. Já, já voltamos para casa. Tchau.
_ Você vai estar de folga no sábado? Por favor, me leve a algum lugar... Não vamos ficar em casa, não. Ligue pra Berta, diga que cancele tudo. Fique comigo no sábado, mas não vamos ficar em casa... Por favor! As paredes...
_ Você não acha que sua irmã cozinha divinamente?
_ Sim...
_ Não sei como alguém consegue fazer uma salada tão gostosa com apenas alface, tomate e cibola.
Era estranho andar depois daquele casal. Estávamos tão perto que eu poderia estender a mão e tocá-los. E era mesmo o que eu queria fazer quando percebi sobre o que eles estavam conversando. Quer dizer, sobre o que ela estava conversando. Fiquei com medo de ser indiscreta e encolhi a mão que teimava se estender. Era uma jovem bonita e um senhor de meia idade, com um nariz estranho. Não sei como essas coisas acontecem, mas a gente consegue ver a posição social de certas pessoas pela cara. Eram ricos, tenho certeza. Caminhavam com roupas esportivas pela calçada. Toda a riqueza do mundo não resolveriam os problemas daquele nariz, nem daquela alma. E eu me impressionei com as últimas palavras que eu consegui ouvir enquanto dobrava a esquina. Eles continuavam o caminho da calçada.
Quem é que sabe explicar por que as mulheres têm em si a necessidade de se arranjar? Contornamos um mundo em nosso próprio interior e, às vezes, parece que é obrigação saber cuidar dele sozinhas. Toda mulher nasce e traz consigo um pouco de sentimento de deus. Só um pouco... Porque quando a dor é demais e o nosso mundo parece explodir, somos nós quem estamos prestes a explodir com ele. Quando uma mulher pede socorro, quando a dor transborda pelos poros e tenta alcançar os ouvidos de alguém, quando é insuportável ficar sozinha; eu repito, por favor, ouçam.
Não, eu não tenho medo de ser piegas. Não nesse caso. Acho mesmo que quando se trata de infelicidade, é preciso cuidado. E ouvidos. Ah... Eu voltarei a postar de verdade, quer dizer, pelo menos eu acho... Tenho muito pra contar, talvez eu consiga escrever.
Mila
April 17 BrigadaTardinha, o sol alaranjado arroxeia o céu. Ainda não entendo como o céu daqui é tão bonito assim, desse jeito assim, vestido para o dia das bruxas... Caminhar rápido nessa cidade virou uma obrigação. Primeiro, porque não se consegue andar devagar sem ser atropelado; segundo, porque não se quer andar devagar para não ser assaltado. Então saímos por aí correndo a cada passo.
O verde dos jardins da cidade, é bem tratado, é de um verde simples, mas encantador. Não sei como as plantas daqui são bonitas assim, retorcidas assim, ficando para trás no vidro da janela assim... Antes, as pessoas fingiam que estavam dormindo no ônibus, para não serem interrompidos por uma conversa fiada. Hoje, não fngem mais, dormem de olhos abertos ouvindo o mp3. Mp3 nessa cidade virou obrigação. Primeiro, porque não se pode falar com estranhos, depois porque não se precisa conhecer mais ninguém, ninguém é confiável.
Noitinha. E eu não me lembro de ter um outro dia assim, alaranjado cor-de-rosa com risquinhos verdes para enfeitar. As cores daqui parecem, muitas vezes, ter som e parece que o tempo para se a gente olha o tempo. Eu sei, o relogio não pára. E quem falou em relógio? Eu não tenho um relógio. Assim como não caminho tão rápido e não tenho um mp3. Não me privei do tempo, não me tapei os olhos, nem os ouvidos. Eu me sinto desobrigada dessas coisas.
"Dizendo: Nego, sinta-se feliz, porque no mundo existe alguém que diz que muito te ama, que muito, muito, muito te ama..."
Mila March 27 Nada...March 09 HojeLotação Lotada. Não sei como essas vãs conseguem continuar a circular. Eu tinha milhões de livros para segurar.
_ Oi. Você pode me fazer um favor?
_ Pois, não.
_ Segura minhas pastas, é que vou ficar em pé por um tempinho.
Nenhuma reação, nenhuma mudança, nenhuma ação.
_ Será que você poderia segurar meus materiais?
_ Eu poderia.
Não pensei coloquei as três apostilas no colo da senhora e pensei que ela fosse surda.
_ Ai!
_ Desculpe, eu te machuquei?
_ Quem mandou colocar esse tanto de coisas no meu colo, mocinha?
_ A senhora disse que poderia segurá-las pra mim...
_ Eu disse que poderia, não disse que o faria.
_ Mas...
Respirei fundo e fechei a boca para não mandar a mulher ir às cucuias...
_ Desculpe, senhora, pensei que pudesse ter a amabilidade de segurar meus materiais... Mil desculpas, mea culpa._ disse recolhendo meus materiais.
_ Desde o começo eu lhe disse que não...
_ Olhe aqui, senhora, se não quer me ajudar, tudo bem. Não precisa gastar saliva comigo, esqueça o que houve, certo? Se me lembro bem, "pois não" ainda quer dizer que se está disposto a ajudar, mas...
_ O problema era a pontuação, Camila, sempre é.
Parei gelada. Como sabia meu nome? Então ela sorriu e eu reconheci minha antiga professora de Redação do colégio, que já havia predito que um dia eu seguiria os passos dela. E eu segui. E ainda me lembro dos dois décimos e meio que ela me tirou na prova de pontuação em que eu separei por vírgulas o pois e o não. À caneta vermelha, ao lado do erro, estava escrito: O problema é a pontuação, querida. Erros do passado sempre vêm à tona. Ainda morro de raiva dela.
Mila March 01 Crises - quando falta algo...Crises vinha sentido falta de alguma coisa que não sabia o que era. Onde ia, a coisa faltosa o incomodava. Não sabia exatamente o que era, mas sabia que desde a ponta dupla de seu cabelo até a unha encravada do pé, faltava alguma coisa. Sabe-se lá o que uma coisa pode fazer por um ser humano. Principalmente um ser humano como Crises. Ele andava por aí com cara de nojo, apenas porque não encontrava a tal coisa... _ Prova um pouquinho do peixe, meu filho... Sua mãe ficou de cara fechada pelo resto do almoço. Ele olhava para o peixe e para ela. O peixe tinha tudo de que ele gostava, a cara de sua mãe era a mesma de sempre, um pouco atravessada, apenas. Mas, Crises encucara: faltava alguma coisa. A mãe lhe ofereceu pimenta, sal, azeite, dendê, ervas finas, o escambal e uma passagem para o raio que o parta. Ele limitou-se a olhá-la com pena. E ela lia naquele olhar que lhe faltava alguma coisa. Crises retirou-se da mesa como se nada houvesse acontecido. Pensou que se algo tivesse acontecido, a coisa lhe deixaria de faltar. Entrou no quarto e pegou o Dostoiévski. Abriu Irmãos Karamazov e não se deteve nem à primeira linha. Não sabia se estava desconfortável com o assento, com o livro, ou com o mundo. Mas sabia que lhe faltava alguma coisa. Que poderia ser? Era tão feliz em seu mundo intelectualóide. Lia bons livros, ouvia boas músicas, estudava com freqüência e não cometia erros quase nunca. É claro que não se questionou quanto ao fato de estar em casa em pleno feriado, lendo Dostoiévski. Quer dizer, tentando relê-lo. Não fosse a maldita coisa... Lembrou-se das sessões de terapia que frequentara, obrigado pelo pai - médico respeitado na cidade - que o coagiu usando de argumentos convincentes e irrefutáveis: _Vai, porque vai e pronto! A psicóloga disse-lhe que devia tratar de se expressar melhor. Colocar seu desabafo, suas emoções e suas crises pra fora. Ela rira do 'belo trocadilho' que nascia do nome estranho de Crises. Ele se encolheu na poltrona. Adorava seu nome. _ Diga o que sente, Crises. Saíra do consultório determinado a implorar a sua mãe que nunca voltassem lá. Não queria, ele um rapaz de dezessete anos, ser tratado como uma criança que tinha certeza de não ser. Sua mãe viu a folha de papel e lhe perguntou do que se tratava. Ele respondeu e viu o riso disfarçado na ponta da boca, na altura do sorriso. Talvez pudesse escrever para descobrir o que lhe faltava. Ia escrevendo... Olhou o papel. Pegou a caneta. Ainda lhe faltava algo. Parou um instante. Ouviu a campainha. _ Crises, é a Léia. Abriu a porta do quarto. Léia passou direto para o Dostoiévski que pousava na cama. Ele a olhou. Faltava algo na feiúra dela. Ainda tinha aquele andar estranho que tinha desde criança, ainda aqueles cabelos macilentos, ainda aquele aspecto terrível, e, sim, ainda aquele suéter azul que ela usava no verão... _ Crises! Você está relendo os Irmãos Karamazov em pleno feriado? ... O agudo da voz ainda era o mesmo, a agonia que ele sentia quando ela dizia seu nome também. Kriiiziiiisxsssss... Era assim que soava para ele. _ Somos mesmo uns nerds, não, é garotão? Ele olhou a melhor amiga e respondeu. _ Sim, somos. Ela lançou um olhar detalhado ao amigo nerd. Dos pés, à cabeça, Crises estava tendo uma crise. A camisa estava virada para o lado avesso; a bermuda era estampada, com certeza do irmão de Crises, pois parecia uns quatro tamanhos mais larga. _ Quem foi que te vestiu assim? Ela olhou o rosto dele e o cabelo despenteado. _ Crises... Os olhos se procuraram de maneira terna, ela se aproximou e levantou as mãos para alcançar o rosto dele. Ele, meio atônito, não conseguia distingüir perfeitamente os movimentos. Ficaram por um momento naquela dança de pingüins. _ Por que você está sem óculos? _ Ela disse, encaixando o par de óculos de armação grossa nas orelhas dele. Quando pôs os óculos, Crises saiu da crise. Não lhe faltava mais nada. Ficou tão feliz que achou que poderia até rir das piadas infelizes que faziam com o seu nome. Mila February 28 Em busca de...Se não assistiram ainda, assistam... Duvido que alguém consiga reclamar da vida depois...
Se não leram, leiam... Nem tudo o que ele fala presta, mas as coisas que prestam são incríveis. Ele era louco, sim... Tá na cara. (Não pensem que eu me tormei atéia, ou qualquer coisa dessas, viu? São as idéias sobre o egoísmo que me pareceram interessantes...)
Nada de muito importante... São só dicas de coisas que pra mim são interessantes... E é também um jeito de tirar aquele post daqui. Já deu o que tinha que dar, né? rs. Como dizem, por aí, blá-blá-blá...
Mila February 21 Sem querer querendoUma vontade grande de me espancar. Tive umas crises de burrice, nem me pergunte como foram. Estou analfabetamente literária e sem capacidade de escrever algo decente pra esse post. Disse a mim mesma que estava tudo bem, era só publicar um dos rascunhos. E lá no dia 11 de abril do ano passado, eu encontrei uma conversa... Uma conversa legal até, mas passada. Relendo as palavras, eu re-senti o quanto estava feliz. E ressenti o quanto hoje a conversa não faz sentido. Nem sei porque gravei a tal da conversa, deve ser pra me lembrar que um dia eu precisava mesmo reler.
Como os velhos baús em que a gente guarda as tranqueiras velhas, aquela conversa suportava todas as coisas que não foram suficientemente velhas para serem esquecidas, mas já não são tão importantes pra estarem ávidas na memória. Me deu uma vontade de rasgar aquilo em pedacinhos... Como se eu pudesse. Por estranha que pareça, essa semelhança de escrever e publicar é mais virtual que a que eu precisava. Tive vontade de rasgar a conversa em pedacinhos, não por raiva, mas por comodidade. Ter esse registro de tempos passados e felizes fazem do presente uma caricatura deformada e ridiculamente risível do passado.
E não era isso o que eu queria pro agora, não era... Essa vergonha imensa que eu sinto de não ter mais uma coisa que eu sempre gostei de ter. Sempre, sim. Sempre enquanto. Parece uma sensação de fracasso. Não era assim que era pra ser. Eu olho o que ficou agora e penso que falta sintonia... E só aí já falta muita coisa. Oh, gente, por que esse negócio de relações humanas é tão difícil? A culpa é minha, tem de ser. Eu devo ter deixado a porta bem escancarada e fui empurrando a vítima pra não deixar que ela percebesse que, na verdade, era uma expulsão e não um até mais. Mas se fui eu que empurrei, por que me dói que se tenha ido?
Maldita crise de burrice: Estou analfabeta (outro dia desses escrevi citar com 's'), e, agora, depois de reler uns arquivos, sei que estou frustrada... Se você conseguiu ler esse post ranzinza até aqui, ouça gritos em sua imaginação... É a minha alma chateada com uns e outros que estão indo embora com a minha permissão.
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