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    August 02

    Eseque - O Brigatório

    Era pra lá que as pessoas iam quando precisavam extravasar. Nada de shows de rock, baladas ou yoga. Quando as pessoas estavam a fim de exorcisar, se encaminhavam para Eseque. Vestiam suas túnicas de briga, arrumavam suas cristas e lá iam soprando fogo pelas ventas. Não era nenhum coliseu aquela arena, mas abrigava alguns centos de pessoas. Sim, lá também era assim, havia os que se divertiam brigando e os que se divertiam sem ter coragem de brigar. Viam o circo pegar fogo, sentados de suas desconfortáveis arquibancadas.
     
    E foi lá que começou o maior galo de briga homem que já houve. Era inegável, havia nele um dom incomum que o colocava em posição de vantagem sobre qualquer outro lutador. A envergadura de seu nariz era tão arqueada, de uma cartilagem tão dura que pescoço nenhum era suficientemente resistente para aturar. Era o melhor lutador de todos os tempos, velhos tempos de brigatório. Tristão era imbatível.
     
    No entanto, sabe-se lá por que ying yang, o bem nunca impera só.
     
    Havia, nesse mesmo tempo, um lutador jactante chamado Pacífico. De nome, apenas. Desde menino, nunca admitira perder. Mimado e cheio de vontades, Pacífico cresceu. E foi tentando crescer, em sua pequenez de alma. O que cresceu foi apenas sua prepotência. De longe se via seu ego. E foi lá de longe, na arquibancada do Eseque, que Pacífico se achou no tamanho de medir forças com Tristão. Quando o locutor alegou a invencibilidade do nosso herói narigudo, o invejoso não se conteve - desafiou, de seu lugar desconfortável mesmo, o invicto Tristão.
     
    Marcada a luta, os loucos e histéricos frequentadores do brigatório não viam a hora de o dia passar bem depressa. E o dia passou. Nada depressa, passou, porque é inevitável que o tempo passe.
     
    Não foi uma luta muito bonita, muito menos limpa. Quando Tristão bicou o pescoçudo Pacífico, o rapaz do mal não se levantou mais. Havia sangue por todo o ringue e a polícia foi acionada. Tristão foi preso. Só ele, sim. Os donos do Eseque mandaram os advogados dizerem à imprensa que a briga era totalmente ilegal e não estava autorizada por eles. Os advogados acharam que seria de bom tom idenizar a família de Pacífico pelos danos. A imprensa acreditou, ou, pelo menos, fez com que as pessoas acreditassem que eles acreditavam que Tristão, nosso herói, tinha uma certa rixa com o defunto. Disseram que a causa da desavença era uma mocinha que preferira o defunto e preterira o detento.
     
    Desde aquele dia, o brigatório não funcionou mais. O edifício ainda está lá, caindo aos pedaços por causa do abandono. Os velhos frequentadores desmentem que um dia estiveram lá. Mas você ainda pode reconhecer um Esequiano por aí... São esses que vivem dizendo "Não meta o seu nariz onde não é chamado" quando perguntados qual a graça de uma briga de galo. E não venha chamar de rinha o que eles fazem... Capaz de acharem que você é mais pescoçudo do que deveria.
     
    ;)
    Mila