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    June 11

    Conto da carochinha

    Era uma vez,
    uma princesinha que vivia feliz em seu palácio. Era destinada a ter alegria para sempre. Um dia acordou mais bonita e saiu à janela. Encontrou o príncipe encantado de seus sonhos e convidou-o para conhecer sua torre. Ele, sem demora subiu. E aí, acabou a felicidade eterna da princesinha.
     
    Ela descobriu que nem todos os dias acordava tão bonita quanto o espelho lhe dizia. Descobriu que o príncipe roncava e babava enquanto dormia. Descobriu que não era assim tão confortável passar a noite toda deitada no peito dele. Entendeu que teria de acordar mais cedo pra fazer o café da manhã dele. Também percebeu que estar grávida não era assim tão simples, tanto quanto não era simples educar os filhos deles...
     
    A princesinha aprendeu, no entanto, que era delicioso sentir-se cuidada e protegida. Que sentia-se muito bem nos primeiros minutos em que deitava no peito dele. Que era engraçado vê-lo dormir de boca aberta. Que melhor do que conversar com o espelho, era ouvi-lo dizer que ela era linda. Que, às vezes, sentia vontade de fazer o melhor desjejum do mundo para ele. E que cada sorrisinho que as crianças davam, ao dizer "mamãe, eu te amo", era uma declaração de amor que ele lhe fazia indiretamente.
     
    Nem sempre era alegre. Mas sabia que, as vezes em que se sentia feliz, era plenamente feliz.
     
    E aqui acaba a história, antes, apenas, de que saibam que ela era uma princesa de mentirinha, ele um princípe de mentirinha e as crianças, crianças de mentirinha... Afinal, isso é conto de fada...
     
    Mila
     
     
    June 04

    As coisas como elas são e a vida como ela não é

                                                     
    Outro dia estava andando com uma amiga. Ela pedalava e eu ia a pé. Como de costume, pegamos o mesmo caminho. Conversávamos abobrinhas, dessas que mulheres conversam quando não têm mais nada pra fazer. Ao atravessar a rua, como duas boas cidadãs, usamos a faixa de pedestres. Quase que involuntariamente, quem me conhece sabe que isso é normal, eu comecei a  conversar com os carros pra que eles parassem. Eu sei, eu sei que a maioria das pessoas acena com a mão para que os motoristas parem os carros. Eu também faço isso... e vou além, converso com os CARROS. Não enxergo motoristas, penso em carros.
     
    _ Eu vou passar, acho bom que vocês parem. Vai ser melhor, podem acreditar._ e acrescentei _ Ela é uma BICICLETA, mas eu sou gente.
     
    Os ciclistas que desçam das bicicletas, se quiserem atravessar pela faixa... A M, minha amiga, morreu de rir. Primeiro, porque eu converso com os carros e, Segundo, porque, enquanto ela estava em cima da bicicleta, tinha deixado de ser gente. Eu também ri. E depois fiquei pensando... São as coisas que fazem parte de nós ou nós que nos tornamos parte das coisas? A partir de que momento as coisas inanimadas tornam-se sujeitos das ações? Apassivação reificada? Ou vocês acham que é marxismo demais para uma cabeça só? rs.