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May 31 Blaséou A Coluna
Aí um dia eu me deparo com essa:
_ Porque eu sei. E eu sei que vocês não sabem, e talvez nem queiram saber, ou sei lá... Acho rídiculo que eu tenha que contribuir todos os dias para o crescimento de vocês. Não, porque é um absurdo. Um absurdo.... O que vocês leram para estar aqui? Eu estudei numa excelente escola, já disse? Não? É claro que já disse. Vocês é que não são capazes de guardar qualquer informação importante. Por exemplo, vocês sabem onde eu nasci? Sabem meu sobrenome? Não? Rídiculos. Todos vocês e ela também. Quem ela pensa que é? Pior. Quem ela pensa que é sem a minha ajuda?
Sem a minha ajuda esse encontro e esses poucos conhecimentos que vocês conseguem captar não seriam nada. Nada, entenderam? Eu repito, pra vocês: nada. E o que eu tenho a ver com o fato de vocês não ouvirem nada do que eu digo?Eu tenho que falar, mesmo que minhas palavras sejam pérolas derramadas aos porcos. Eu não posso admitir que alguém diga que o fato de vocês serem rídiculos ignorantes seja culpa minha. Porque não é minha culpa. Só será minha responsabilidade, se, milagrosamente, alguns de vocês concordarem comigo.
Ando cansada. Cansada de vocês me olharem como se eu fosse de outro mundo. Por mais que nós sejamos de classes e cores diferentes, eu ainda pertenço ao mesmo mundo que vocês. Nem sei se felizmente, ou infelizmente. Acho que ainda bem. Porque eu sou necessária, sei lá. Não. Sei lá, nada. Eu sei que eu sou indispensável. Indispensabilíssima se é que existe essa palavra. É que, às vezes, eu não sei falar português. Que foi? Vocês só falam português? Que ridículo.
Eu sou muito inteligente. A minha família é inteligente. Tradicionalmente inteligente.Tradicionalmente rica. Minha mãe era inteligente, a mãe dela era inteligente, a mãe da mãe dela e assim sucessivamente repetido. Sim, eu acho que os verbos que sofrem elipse nas estruturas de comparação devem aparecer no final da oração. Se não, não é oração. Não me importa que vocês consigam depreender que eu não preciso dizer o verbo porque vocês conseguem entender. Imagina. Ridículo: se, muitas vezes, nem mesmo eu consigo saber falar português, quem dirá vocês.
Não gosto de torres de marfim e nem de carrara. Minha torre é feita de ouro branco, não cravejei de brilhantes porque pensei que seria ridículo. Quem olha de perto, porém, se tiver o mínimo de sensibilidade, entende que os riscos bem acabados e perfeitos que ornamentam meu pedestal imitam um bordado egípcio que representava a família real.
Porque eu sei. Eu sei e pronto. Eu gosto. Eu quero e eu digo. Quem sabe um dia, quando eu for mais conhecida, vocês possam dizer que estudaram comigo, se eu não processar vocês antes, por dizerem o meu nome em vão._ respirou e calou.
E eu pensei: que se diz, quando as pessoas afirmam sua importância na vida da gente? Diz-se obrigado, pede-se licença e caminha-se. Pra frente é que se anda, não exatamente para cima; como pensam uns e outros.
É cada tipo de gente que eu encontro por aí... Dos mais bizarros aos mais rídiculos. Esse tipo aí é um dos que eu não aguento mais. Pensei, no entanto (rs), que poderia ser divertido escrever esse texto e pensar em como seria se a personagem encontrasse a realidade que não a conhece. Quem levaria o susto primeiro? A imagem, o espelho ou o objeto? Pra quem não me entendeu, calma. Pense apenas que eu tenho ouvido esse discurso por muito tempo. Tempo demais.
Mila May 15 Alface, tomate e cibolaOuçam.
_ Eu precisava mesmo sair daquele apartamento. Às vezes parece que as paredes querem me empurrar, ou me prender, eu sei lá... Você já se sentiu assim? Pensando que as paredes vão te apertar? Eu sinto isso, às vezes. Não, às vezes, não. Quase sempre. Não aguento mais ficar presa naquele apartamento. Antes eu tinha vontade de sair, ultimamente até disso eu não tinha mais vontade...
_ Ah.
_ A gente podia sair juntos mais vezes, talvez você pudesse ter algumas folgas na empresa... Eu sinto a sua falta, sabe? A gente tá tão longe... Moramos juntos e estamos tão longe. Não é engraçado quando a gente se descobre assim? Tão perto e tão longe. Não, acho que não é engraçado. Aliás, quase nada tem sido engraçado ultimamente.
_ Como é mesmo o nome daquela sua irmã que nós visitamos no sábado?
_ Quem?
_ A sua irmã... A gente almoçou na casa dela sábado...
_ A Dulce...
_ Dulcinéia, não é?
_ ...
_ Que salada divina ela sabe preparar... Uma delícia, nunca comi nada melhor que aquilo...
_ Eu tenho estado tão sozinha ultimamente. Você quase nunca está em casa, não vou mais para a faculdade, não trabalho mais... A gente não tem filhos. Será que um dia a gente vai ter filhos? Você acha que eu seria uma boa mãe? Acho que talvez alguém me faria companhia, pelo menos. Mas eu seria sim uma boa mãe. Tinha de ser. Seria a única coisa que me restaria. Talvez eu me sentisse realizada. Talvez eu não devesse pensar nisso. Parece que me aperta também pensar assim. Eu sei que pareço chata, mas eu sei que você me entenderia... Eu olho pro nosso apartamento e não vejo nada. Todas aquelas coisas de que eu gostava tanto antes, agora nem tem sentido e nem valor... Às vezes eu penso que eu também não tenho mais valor...
_ O que será que tinha no tempero da salada?
_ Azeite com alecrim. Eu não sou nada, você entende? Não sou boa dona de casa, aliás, eu nem preciso ser, as empregadas fazem isso por mim. Não sou uma boa profissional, porque nem profissão eu tenho. Não sou boa esposa... A gente não tem tempo mais de ser isso, não é? Mas eu entendo você. Só não me entendo, às vezes. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde tudo estaria assim... Acho que, sem querer, eu sabia. Só não acreditava. Eu não acreditava que eu pudesse me sentir tão vazia...
_ Qual o telefone da sua irmã? Vou pedir para a Berta ligar para ela e pedir a receita. Vou jantar em casa hoje, seria uma ótima idéia aquela salada.
_ Eu preferia não ficar em casa. Estou lá todos os dias... E as paredes me apertam, você consegue entender? Aquelas paredes me apertam. Eu sinto que estou por um fio quando estou naquela casa, e são as paredes que puxam o fio. Não posso continuar assim, estou a ponto de gritar socorro quando entro naquele apartamento. Tanto espaço e tanta coisa para nada. Os móveis estão sempre tão bem arrumados que chega a me dar arrepios. Parece que alguém me aprisionou em uma casa de bonecas. É isso... Talvez eu tenha me transformado em boneca. Presa em uma casa cor-de-rosa e vazia, inteiramente oca.
_ Alô, Berta? Faça um favor para mim? Ligue para a irmã da Dona Alice e peça a receita da salada de sábado. Isso. Diga que foi a Alice quem pediu, sim. Diga a ela que a Alice disse que estava tudo muito delicioso no sábado e que ela está convidada para almoçar em casa em qualquer fim de semana desses. Não, não... Melhor, melhor. Diga que vamos almoçar todos aí em casa nesse sábado mesmo. A Dona Alice? Ela está aqui. Já, já voltamos para casa. Tchau.
_ Você vai estar de folga no sábado? Por favor, me leve a algum lugar... Não vamos ficar em casa, não. Ligue pra Berta, diga que cancele tudo. Fique comigo no sábado, mas não vamos ficar em casa... Por favor! As paredes...
_ Você não acha que sua irmã cozinha divinamente?
_ Sim...
_ Não sei como alguém consegue fazer uma salada tão gostosa com apenas alface, tomate e cibola.
Era estranho andar depois daquele casal. Estávamos tão perto que eu poderia estender a mão e tocá-los. E era mesmo o que eu queria fazer quando percebi sobre o que eles estavam conversando. Quer dizer, sobre o que ela estava conversando. Fiquei com medo de ser indiscreta e encolhi a mão que teimava se estender. Era uma jovem bonita e um senhor de meia idade, com um nariz estranho. Não sei como essas coisas acontecem, mas a gente consegue ver a posição social de certas pessoas pela cara. Eram ricos, tenho certeza. Caminhavam com roupas esportivas pela calçada. Toda a riqueza do mundo não resolveriam os problemas daquele nariz, nem daquela alma. E eu me impressionei com as últimas palavras que eu consegui ouvir enquanto dobrava a esquina. Eles continuavam o caminho da calçada.
Quem é que sabe explicar por que as mulheres têm em si a necessidade de se arranjar? Contornamos um mundo em nosso próprio interior e, às vezes, parece que é obrigação saber cuidar dele sozinhas. Toda mulher nasce e traz consigo um pouco de sentimento de deus. Só um pouco... Porque quando a dor é demais e o nosso mundo parece explodir, somos nós quem estamos prestes a explodir com ele. Quando uma mulher pede socorro, quando a dor transborda pelos poros e tenta alcançar os ouvidos de alguém, quando é insuportável ficar sozinha; eu repito, por favor, ouçam.
Não, eu não tenho medo de ser piegas. Não nesse caso. Acho mesmo que quando se trata de infelicidade, é preciso cuidado. E ouvidos. Ah... Eu voltarei a postar de verdade, quer dizer, pelo menos eu acho... Tenho muito pra contar, talvez eu consiga escrever.
Mila
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