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Além do MaisNada é tão demais que não dê pra ir além... October 23 TolicesAs coisas mais tolas que já vi na vida vieram de pessoas das quais eu não esperava tanto... O que me fez pensar o quanto eu também sou tola quando penso que sou muito esperta. Acreditem, são histórias verídicas:
Picolé
Existe aqui um picolé meio esquisito. Tem cor azul - o que já é estranho por demais para um comestível - e sabor de tuttifruti - que não ajuda em nada, já que eu não sei ao certo o que está contido em tuttifruti. Será que há jaca em tuttifruti? Afinal são todas as frutas, não é? Será que há Amarula em tuttifruti? Enfim. Estava sentada com minha prima em frente à casa de meus avós na Bahia. Um calor de aterrar, como vocês podem presumir, e milagrosamente nos aparece um moleque vendedor de picolé.
_ Ê, menino!
_ Fala!
_ Quanto tá o picolé?
_ Tem de ciquenta, de oitenta e de um...
_ Tem de quê?
_ De uva, de côco, de abacaxi, de goiaba, picolé de blue ice...
Blue Ice. Esse é o nome do picolé azul. Na verdade, o picolé é exatamente isso: um gelo azul. Mas na hora em que o moleque disse picolé de blue ice eu disparei a rir enquanto ele e minha prima me olhavam sem entender nada.
_ Como é que é um picolé de blue ice? Blue ice é o quê? Uma fruta? Igual goiaba?
Tá eu sabia que não era uma fruta, mas é que na minha burrice apressada não sabia que havia elipse da palavra sabor para justificar a preposição 'de'. O negócio é que nem minha prima nem o moleque acharam graça nenhuma. Eu também perdi a graça.
_ É que blue ice quer dizer gelo azul, sabe? Tá. Esquece... Eu quero um picolé de goiaba...
E a minha prima, como afronta:
_ Quero um de blue ice.
E o menino me entregou meu picolé em que estava escrito, entre figuras da fruta, o nome 'GOIABA' e o de minha prima, embalado em saquinho azul, com letras cor-de-rosa: BLÚ AICE.
Jajeira Mental
Estavam no ônibus. Dois estudantes do colégio militar daqui de Brasília. Deviam ter 11, 12 anos. Os dois com uma pinta de muito espertos conversavam com a cobradora do ônibus a respeito de um programa de televisão. Era o concurso 'SOLETRANDO'. Os meninos contavam vantagem dizendo que ganhariam facilmente o concurso...
_ A garota do programa não sabia o que era ornitorrinco...
A cobradora:
_ Eu também não sei o que é.
O mais metido dos meninos:
_ Ornitorrinco é uma espécime muito rara de mamífero, com boca de pato; corpo de lontra; pés, patas e cauda de foca. Na verdade, ele põe ovos, mas amamenta seus filhos e é um marsupial, como o canguru.
Foi nessa hora que eu parei na conversa deles. Meu irmão que estava do meu lado disse que eu quase belisquei o menino pra saber se ele era de verdade. Mas aí veio o pior de tudo. O outro menino resolveu se exibir também:
_ Eu sei soletrar ornitorrinco.
_ Então soletra!
_ O-R-N-I-T-O-R-R-I-N-C-O.
A cobradora:
_ Muito bem. Agora soletra uma coisa mais simples... Deixa eu ver. Soletra o que a menina da TV errou, soletra TIGELA.
_ Essa é fácil: T-I-J-E-L-A.
Ela corrigiu:
_ Tigela é com G.
_ Não é não.
_ É sim, foi isso que a menina errou...
_ Então ela não errou! Como alguém poderia escrever TIGUELA????
Ah, não, gente... Não, não.
October 14 NadaE cá estou eu sem ter nada a ver com as coisas, mas não alheia ao que há com os outros. Há mesmo coisas inevitáveis no mundo. E uma delas, a mais incotestável delas, talvez, seja o fim. E não interessa de quem é a culpa, ou porque é que o seu link está na lista de visitantes da minha página. Não dá pra buscar em alguma coisa as razões do que era inevitável. Acaba-se o que era finito e pronto. Passado perfeito. Ação completada. Eu sei que parece simplista na boca de quem não tem nada a ver com a história. Mas é por ser simples mesmo que dói menos... E é melhor doer menos, né, não, gente? Ufa.
August 02 Eseque - O BrigatórioEra pra lá que as pessoas iam quando precisavam extravasar. Nada de shows de rock, baladas ou yoga. Quando as pessoas estavam a fim de exorcisar, se encaminhavam para Eseque. Vestiam suas túnicas de briga, arrumavam suas cristas e lá iam soprando fogo pelas ventas. Não era nenhum coliseu aquela arena, mas abrigava alguns centos de pessoas. Sim, lá também era assim, havia os que se divertiam brigando e os que se divertiam sem ter coragem de brigar. Viam o circo pegar fogo, sentados de suas desconfortáveis arquibancadas.
E foi lá que começou o maior galo de briga homem que já houve. Era inegável, havia nele um dom incomum que o colocava em posição de vantagem sobre qualquer outro lutador. A envergadura de seu nariz era tão arqueada, de uma cartilagem tão dura que pescoço nenhum era suficientemente resistente para aturar. Era o melhor lutador de todos os tempos, velhos tempos de brigatório. Tristão era imbatível.
No entanto, sabe-se lá por que ying yang, o bem nunca impera só.
Havia, nesse mesmo tempo, um lutador jactante chamado Pacífico. De nome, apenas. Desde menino, nunca admitira perder. Mimado e cheio de vontades, Pacífico cresceu. E foi tentando crescer, em sua pequenez de alma. O que cresceu foi apenas sua prepotência. De longe se via seu ego. E foi lá de longe, na arquibancada do Eseque, que Pacífico se achou no tamanho de medir forças com Tristão. Quando o locutor alegou a invencibilidade do nosso herói narigudo, o invejoso não se conteve - desafiou, de seu lugar desconfortável mesmo, o invicto Tristão.
Marcada a luta, os loucos e histéricos frequentadores do brigatório não viam a hora de o dia passar bem depressa. E o dia passou. Nada depressa, passou, porque é inevitável que o tempo passe.
Não foi uma luta muito bonita, muito menos limpa. Quando Tristão bicou o pescoçudo Pacífico, o rapaz do mal não se levantou mais. Havia sangue por todo o ringue e a polícia foi acionada. Tristão foi preso. Só ele, sim. Os donos do Eseque mandaram os advogados dizerem à imprensa que a briga era totalmente ilegal e não estava autorizada por eles. Os advogados acharam que seria de bom tom idenizar a família de Pacífico pelos danos. A imprensa acreditou, ou, pelo menos, fez com que as pessoas acreditassem que eles acreditavam que Tristão, nosso herói, tinha uma certa rixa com o defunto. Disseram que a causa da desavença era uma mocinha que preferira o defunto e preterira o detento.
Desde aquele dia, o brigatório não funcionou mais. O edifício ainda está lá, caindo aos pedaços por causa do abandono. Os velhos frequentadores desmentem que um dia estiveram lá. Mas você ainda pode reconhecer um Esequiano por aí... São esses que vivem dizendo "Não meta o seu nariz onde não é chamado" quando perguntados qual a graça de uma briga de galo. E não venha chamar de rinha o que eles fazem... Capaz de acharem que você é mais pescoçudo do que deveria.
;)
Mila
July 31 Depois da Tempestade... Bar virtual._ Se a gente é mesmo feito pra viver, porque essa vontade dolorida de fim o tempo todo?
_ Sei lá... Vai que a gente não foi feito pra viver...
_ Ah, não, esperteza? E por que a gente vive se não foi feito pra viver?
_ Eu já disse que não sei?
_ Já. Mas cê tem vontade dolorida de fim?
_ Bicho, acho que vontade dolorida de fim é coisa de artista, sabe? Gente sensível que não tem o que fazer? Aí vai olhando a vida, falando da vida, dizendo a vida, criando a vida, analisando a vida e acaba não vivendo...
_ Então cê não tem vontade dolorida de fim?
_ Primeiro que eu não tenho essas frescuras de dar nome difícil para as coisas... Fica até bonitinho, eu sei que todo mundo tem vontade de morrer, mas eu quero mesmo é esquecer que eu tenho isso. A gente podia filosofar menos e curtir mais, não?
_ Eu tô chata, né?
_ Você triplica sua chatice quando admite que tá chata.
_ É de propósito, mas obrigada pela sinceridade.
_ Você não tá chata, nem é chata também... Cê sabe disso, tô pra ver gente que tem mais consciência de si mesma que você. O negócio é que você pensa demais sobre as coisas. E, por incrível que pareça, você pensa falando...
_ Não é incrível, é normal. E eu nem tenho como evitar pensar demais sobre as coisas... Tô achando tudo tão difícil ultimamente que prefiro meus pensamentos.
_ Se a gente inventasse um bar virtual, você sairia pra tomar uma comigo?
_ Tomar uma? De onde cê tira essas idéias? Sabe que eu não bebo...
_ Eu também não, mas é virtual...
_ Acho que eu iria, sim. Onde é o bar?
_ Fica a uns três megas daqui... A gente chega lá rapidinho...
_ kkkkkkkkkkk... Sabe que você levanta meu astral, né? Tu é massa demais, C...
_ Olha aí... Nem bebeu ainda e já tá me dando mole...
_ Como você é bobo, gente...
_ Vai dizer que não é por isso que você me ama?
_ Acho que é por isso também...
C,
Certas pessoas são marcantes e inevitavelmente inesquecíveis... Declarações de amor não são meu forte, aliás, amor nunca foi meu forte. Mas você tem uma capacidade imensa de despertar as minhas forças pro que eu não pensava ser capaz de acordar. Amo você.
Mila July 25 A revolta dos animais_Vi outro dia um senhorzinho temperamental chamar aos amigos de animais. Me indignou o fato de eu ser uma dos amigos. Disse a ele que me indignara. Ele olhou-me com o desdém de quem realmente não emprestava nenhum valor à opinião alheia, principalmente à minha.
Pois eu vou dizer de novo: animal é a tua família, a tua casa, quem nasceu grudado aos teus pés. Sei o caminho da porta, e eu vou, não porque quer que eu vá, também por isso, mas vou mais por medo de me reduzir animalescamente à tua companhia.
E era assim que minha avó brigava nos anos 40... Viram? É de família. A gente vai ser desaforada e desbocada com classe até mil gerações. É instinto. rs.
"Bom dia, como estar vivo é bom! Sorria, todos tem esse dom!"... Sabe quando a gente tá mais feliz? Quando a gente esquece que acorda mal humorada todos os dias, quando esquece que é uma estátua de gelo na Sibèria, quando esquece como era ser pessimista, quando o dia já começa anormal, sabe? É isso. Minha vida está sendo anormal. rs.
Mila July 24 Mimaguô_ Tá, eu desisto. Desisto de tentar te entender, de tentar fazer você entender.
_ Desiste? Como assim desiste?
_ Assim, desistindo. Se eu não desistir disso, desisto de você.
_ Você não devia me falar isso. Agora me magoou.
_ Não faz mal... Eu desisti mesmo...
E saiu em falar mais nada, sem nem bater a porta. E era esperado que batesse a porta. Não deu pra ouvir os passos no corredor, os dedos tamborilando na porta do elevador. Só que celular não deixa ninguém em paz. Foi entrar no elevador e o telefone tocar.
_Quê? Não tô ouvindo. Tá sem sinal... Quê? Quem? Dá pra me ligar daqui a pouco? Vou desligar. Tchau.
E, de repente, houve escuridão. Sem mesmo alguém dizer 'que haja'. E a escuridão fez o elevador parar. Mas quem parou foi só o elevador, o coração disparou. A respiração acelerou, parecia que uma multidão respirava o ar que ela aspirava a aspirar.
Não era claustrofobia, mas parecia. E a frescura que afetou o elevador naquela hora fez com que se encostasse e se encolhesse no canto do elevador. O escuro parecia potencializar os sons que povoavam aquele fosso. Sentiu que as mãos não eram mais suas, e que os dedos não tamborilavam mais.
Desisto, sussurou baixinho. Um sussurro que tinha força de grito de acordar doente em coma. Era peso demais pra uma vida só. E olha, que eram duas pessoas. Desistiu. Abandonou os ombros sobre os joelhos, de cócoras, enquanto a cabeça ouvia os ruídos que o elevador fazia. Mimaguô, mimaguô, mimaguô era tudo que ouvia. Eu o magooei, era tudo o que pensava.
E houve luz. O elevador voltou ao normal e ela nem sabia porque era que se sentia tão mal assim. Quando abriram a porta, ela foi direto nos olhos dele.
_ Você está bem?
_ Tô.
_ Fiquei preocupada, saí sem te dizer nada. Foi você quem me ligou?
_ Fui.
_ Desculpa, eu tava no elevador.
_ Oh, querida, você vai ficar bem, viu?
Bem do quê? E ela via que o mundo ia passando enquanto ela ficava parada. Voava rapidamente na horizontal vendo meias pessoas, apenas. E onde estavam os olhos dele? Quis estender a mão e tocar a dele. Não havia mãos. Gemeu porque não podia fazer outra coisa, percebia que não conseguiria manter-se sendo por muito tempo. Tentou olhar e não conseguiu ver. Desistiu.
Não se assustem, hoje eu quis escrever e saiu o nome tragédia nas letras tortas. Acontece na vida de todo mundo. Eu queria mesmo morrer alguém; não literalmente, mas queria. (Muahuuahuahuahahuhauhau...)
Mila July 22 Tinta guacheConheci um artesão que vendia esculturas feitas de arame. Eram bonitinhas, mas nada tão demais que me fizesse querer ter uma daquelas. Era um homem conversador, inteligente e engraçado, se eu puder acrescentar alguma coisa. Quando eu estava observando os animaizinhos de fios de arame, veio um outro senhor e começou a fazer perguntas ao artista:
_ O senhor demora muito pra fazer uma peça? É coisa assim de uns quinze minutos?
(Sobre o tempo de criação de alguém: o autor nunca admitirá ser tão rápido nem tão demorado quanto os outros pensam)
_ Essa peça que o senhor está fazendo, quando começou, já tinha idéia do que seria?
(Quer dizer, o processo é uma coisa alheia em que o autor não sabe nada do que está fazendo...)
_ Onde aprendeu a enrolar o arame? A vida lhe ensinou?
(Ou seja, não existe dom. A vida ensina... Essa idéia nunca vai caber na cabeça de um gênio da arte...)
_ Como é seu processo criativo? Você pensa em que, para criar um jacaré, por exemplo?
(Dãhhhh...Todo artista reconhece a vida como modelo, isso é mimese... embora os jacarés parecessem muito com o artesão...)
Muito chato, o senhor metido a repórter de coluna crítica de arte. Todas as perguntas continham evidente desdém pelo trabalho do artesão. E, lógico, o dono das peças não ficou contente com isso. Estava suportando as críticas/perguntas calado, até que o questionador resolveu soltar essa:
_ Por que essas esculturas são tão caras? Esses aramezinhos são bem baratinhos...
Dava pra ver a indignação na cara do artista:
_ E o senhor acha que o preço das esculturas é o preço da matéria prima?
_ Acho... Vc só enrola esses fios, deveria ter um preço mais em conta, já que o arame é tão barato.
A resposta do artesão foi o melhor pensamento sobre a indústria cultural que eu já vi:
_ Se acha que arame é barato, quanto você acha que custa tinta guache?
_ Não sei, mas deve ser bem barato...
_ E por que não sai daqui e vai comprar um Picasso? Ora...
Ou seja, nem a obra vale pelo que é - sua matéria-prima - na essência, nem o artista é o que pensa que vale. Atribuíram um valor a Picasso, um valor ao artesão, um valor à obra e nehum deles corresponde ao valor real. Minha profesora de Literatura predileta diria que isso é o Fetichismo da Mercadoria. Eu diria apenas que Picasso pintava a óleo.
Mudei o tema e o layout do blog em homenagem à tinta guache de Picasso, mas eu volto pro anterior. Sei lá, aquela mão indiana com tatuagens indecifráveis de Henna tem mais cara de Além do Mais.
Mila
July 12 MaracujáVou confessar uma coisa, quando eu era criança (pra quem pensa em fazer aquela gracinha óbvia de que eu ainda sou criança, eu explico, tintim por tintim: o que eu quis dizer é quando eu, inegavelmente, tinha idade de criança...), queria fumar. Desejo de infância mesmo, sabe? Achava lindo aqueles filmes antigos em que as mulheres sensuais carregavam um cigarrete. Queria muito segurar o papelzinho enrolado enquanto ele fosse lentamente pegando fogo.
Nunca fui uma criança muito contida, eu era mais dócil, mas sempre fui inquieta. Um dia estava no quintal de casa, embaixo do pé de maracujá. Não era qualquer pé de maracujá, era o MEU pé de maracujá. Nosso quintal era muito grande, eu cresci em uma chácara em que podia gastar minhas energias em algo mais natural do que cortar os vestidos da minha mãe. Tínhamos alguns cinco pés de maracujá, dentre eles um era o meu. Pé de marcujá doce.
O fruto era um delícia, docinho, e meio arroxeado. Mas não era só do fruto que eu me utilizava embaixo daqueles ramos. Eu gostava de fingir que os caniços do caule do maracujá eram meus cigarros. Um dia, com o auxílio de minha melhor amiga, acendemos o caniço. Não teve muita graça, queimou rápido e só tinha gosto de fumaça. Pensamos em alguma coisa que pudesse servir de fumo. Encontramos: folhas de goiabeira.
E essa foi a primeira vez que eu fumei na minha vida. Não me lembro bem se senti alguma coisa diferente além do cheiro de mato queimado e do cheiro de goiaba verde. Lembro-me bem, no entanto, de que andei com o cigarrinho como se fosse uma dessas divas do cinema. Com o caniço entre os dedos, fui realizar meu sonho de ser sexy fumando. Tive que me concentrar tanto na tarefa de rebolar (naquela época não me era natural, eu tinha uns oito anos), que me esqueci do cigarrinho. E ele queimou os meus dedos.
Confissão parcialmente feita. Depois da confissão a gente precisa ter aprendido alguma coisa, precisa entender porque o que a gente fez estava errado e depois se punir. O que aprendi: que não posso me concentrar em duas coisas ao mesmo tempo e que ser sexy custa muito caro. Eu estava errada porque quando se comete um pecado (pecado porque, na minha casa, fumar sempre foi muito, muito errado), a gente precisa, pelo menos, curtir o pecado, já que ele vai ter consequência mesmo. E agora, a etapa final, a punição. Não foi meu primeiro pecado, mas até hoje não consigo me livrar das consequencias. A prova cabal está no fato de eu estar, neste momento, sofrendo com uma reação alérgica, só porque quis ficar sexy... Cosméticos não são brincadeira. Não têm fumacinha, mas enchem a pele da gente de bolhas.
Quem acredita em São Murphy diga Amém. Eu já estava assim ontem e tive uma entrevista de estágio. Em inglês! cheia de bolhas, nervosa e tendo que falar inglês! Agora, digam Aleluia. E vivam as leis de Murphy, já que elas não podem morrer, mesmo...
Ô, gente, eu tô horrorosa... ROFL. Vou quebrar o espelho daqui de casa pra não ter o desprazer de me ver cheia de bolha assim... Nem por isso deixo de gostar de maracujá, de goiaba e, muito menos, de cosméticos...
Mila
July 10 Dona Amanda e as árvores da montanhaDia desses eu vinha andando e parei pra observar. Na minha rua, há uma senhora que deve ter lá os seus muitos e muitos anos de idade e que sai todos os dias de manhã para catar as folhas secas que caem das árvores. Não, ela não usa rastelo ou qualquer outra ferramenta. Dona Amanda usa as mãos. E a boca também, porque, enquanto trabalha, geme baixinho uma musiquinha indecifrável. Cansei de só observar e fui ter com o meu destino:
_ Dona Amanda, o que está fazendo?
_ Bom dia, menina. Estou limpando as sujeiras que as árvores deixam na calçada.
_ Ah... (é que realmente ninguém deve ter notado que era isso...humpf) Não seria mais fácil usar um rastelo, uma pá e um cesto?
_ Se eu usasse um rastelo, uma pá e um cesto não seria um passatempo, seria um trabalho.
_ Ah...É um passatempo?
_ Sim. Quando a gente é jovem não entende o que é um passatempo. Quando meu esposo morreu (nosso lendário General Matias, de quem Dona Amanda sempre fala...), eu fiquei por muito tempo lá em cima no apartamento olhando as pessoas passarem e deixando cair as minhas lágrimas de saudade. Um dia uma lágrima caiu no ombro de um menino. (Juro que nessa hora eu pensei em fingir que minha mãe tinha me chamado e escapar dali correndo... Parecia coisa daqueles filmes que te obrigam a aprender uma lição de moral quando assiste. Não escapei porque ela segurou meu braço pra que eu servisse de muleta e ela pudesse caminhar). O menino apenas olhou pra cima e disse 'velha nojenta!'. E eu fiquei olhando as árvores. Elas também deixam cair no chão as feridas velhas que elas têm. Bom... eu devo estar impacientando você com a minha história, está escrito em seu rosto (Eita, velhinha sabida). Não quero incomodar ninguém, é por isso que venho recolher as folhas, uma por uma. Deve ser difícil, para as árvores, não poder sair do lugar e depois ter de ouvir 'velha nojenta' cada vez que uma mágoa atrapalha o caminho de alguém.
Eu soltei a mão da Dona Amanda dizendo que minha mãe estava me chamando. Não estava. Agora, toda manhã, quando olho pra ela, não penso mais 'que velha doida, catar as folhas secas, uma por uma?'. Não penso porque entendo que ela precisa desse gesto poético pra se esquecer das suas próprias lágrimas. Por outro lado, vai que um dia a mania dela me incomoda e eu grito 'velha doida!' e ela desenvolve outra mania pior? Melhor não arriscar.
Eu estive por um tempo muito ocupada. Agora, que estou de férias, é o ócio e a preguiça que me impedem de escrever mais. Quer dizer, considerando a frequencia dos últimos posts, o ócio tem me impedido de escrever mesmo. Mas... Talvez eu volte, um dia eu volto...
Mila
P.S.: Depois de reler o texto eu fui me dar conta de uma coisa... Amanda é um nome latino, gerado de um particípio que não existe mais na nossa língua, mas que quer dizer 'aquela que nasceu para ser amada'. Acho que o General Matias faz mesmo muita falta à minha idosa vizinha.
Mila
P.S.2: Pra quem sabe da história (Marcus), essa não é a velhinha do 'Me ajuda'... Pra velhinha do 'ajuda', eu diria, sim, 'velha doida!' . rs
Mila |
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